Os 3 gatilhos do comportamento seguro que realmente salvam vidas
Comportamento seguro é uma das expressões mais ouvidas no ambiente corporativo, principalmente nas indústrias.
Porém é alvo de muita resistência.
O número de acidentes de trabalho no Brasil alarmam engenheiros, técnicos e outros profissionais de segurança engajados no combate às lesões laborais, principalmente no “chão de fábrica”.
Nosso país ocupa o 3º lugar no ranking de acidentes, perdendo apenas para Estados Unidos e China.
Veja a reportagem da TV Cultura
Muito planejamento, capacitação e persistência são exigidos da equipe de segurança do trabalho.
Mesmo assim, o resultado médio é abaixo do desejado.
E isso coloca os profissionais da segurança do trabalho diante de novos desafios.
Como as pessoas funcionam quando o assunto é comportamento seguro
Depois de mais de 20 anos fazendo palestras para SIPAT no Brasil inteiro, coletando fatos e aprendendo com a experiência pude entender o mecanismo motivacional da segurança.
Padrões comportamentais que se repetem e estão presentes nas instituições em todo o mundo.
Porém, há um destes padrões que considero o mais importante:
As pessoas só se movem quando seus gatilhos emocionais são acionados
O tão desejado comportamento seguro somente é adotado quando emoções-chave são acionadas, geralmente ligadas a necessidades e desejos humanos críticos tais como:
- Sobrevivência
- Perspectiva de futuro
- Relevância pessoal (reconhecimento)
- Recompensas
Se não houver estímulos que afetem tais emoções, todo o esforço será desperdiçado.
Queira ou não é assim que as coisas são.
E é assim que devemos enxergá-las e tratá-las.
Os infinitos esforços pelo comportamento seguro e a raiz de todo o mal
Percebe-se que os profissionais de segurança do trabalho gastam muito tempo, dinheiro e “gogó”, tentando convencer suas equipes a respeitar as normas de segurança.
Mas parece que quanto mais eles se esforçam, mais os trabalhadores resistem.
É sabido que isso acontece por uma tendência das pessoas de criar barreiras, quando se sentem de alguma forma controladas.
Tal fenômeno é estudado pela psicologia e inclusive tem nome.
É a chamada reatância psicológica, conduta ora consciente, ora inconsciente, de agir contra determinada expectativa.
Quanto mais cobramos, mais as pessoas criam resistência.
Não é por maldade.
É de fato um mecanismo psicológico automatizado.
Por outro lado, quando os gatilhos emocionais são disparados, as pessoas agem por si mesmas, impulsionadas por sensações favoráveis à sobrevivência, à autoproteção, ao desejo de sentir-se relevante e à busca por recompensas
Trabalhar com tais gatilhos é uma conduta muito mais realista, naturalmente persuasiva e com intenso poder de engajamento, a partir de elementos que as pessoas já carregam consigo.
Elementos estes entranhados nas profundezas da psique humana.
Os inimigos mais comuns do comportamento seguro
Além de planejar e estruturar um plano de segurança, o profissional que gerencia o comportamento precisa ter ciência dos gargalos de sua atividade, os inimigos do comportamento seguro.
Aqui estão os mais comuns:
- O pessoal da CIPA fala o dia todo sobre a importância da conformidade, do cumprimento das regras de ouro, normas de segurança ao operar máquinas, cuidados no trânsito, etc.; porém, suas recomendações são frequentemente ignoradas
- A cobrança pelos bons indicadores é intensa, mas os trabalhadores acham que é chatice pura
- Todo profissional de segurança do trabalho já ficou com a garganta doendo de tanto brigar pelo uso dos EPI´s, mas os trabalhadores insistem em deixar de usá-los
- Mesmo diante dos alarmantes acidentes, as pessoas ainda são negligentes e exageram na confiança baseada na “experiência” que supostamente possuem
O que mais me surpreende são empresas que acreditam que mais tecnologia e outros recursos adicionais são a solução definitiva para os desvios comportamentais.
Mas honestamente, não acredito nisso.
A negligência é de fato, a raiz de todo o mal quando se fala sobre segurança do trabalho
Só se corta o mal pela raiz trabalhando na causa-raiz desse mal.
É disso que vamos tratar.
Os gatilhos emocionais humanos e seu uso na segurança do trabalho

Conhecer e acionar os gatilhos que disparam as emoções humanas é a solução que os profissionais de segurança realmente precisam.
Tal proposta, resinifica e remodela o raciocínio da segurança, mudando o foco das ferramentas para as pessoas.
O ponto chave passa a ser a psicologia das motivações humanas e o que fazer na prática para utilizá-la.
A condição insegura é provocada, permitida e pode ser eliminada se as pessoas quiserem.
Considero que há 3 gatilhos emocionais, cruciais para o domínio do comportamento seguro:
1 – O medo de morrer
2 – A vontade de viver
3 – O desejo de sentir-se importante
Cada um deles tem uma dinâmica própria e uma repercussão emocional muito singular.
Vejamos como disparar cada um desses gatilhos, numa perspectiva estratégica (de longo prazo) e relevante (com mudanças sustentáveis), para criar a segurança nossa de cada dia.
Vou mostrar 5 ações práticas para cada gatilho, gerando diferentes alternativas para o trabalho do profissional de segurança.
Gatilho 1 – O Medo de Morrer
O medo da morte é um gatilho forte porque nos coloca em posição de vigilância diante de situações de risco, protegendo a vida humana do perigo consciente.
Pode parecer agressivo acionar esse gatilho.
Mas é melhor um gatilho acionado e as pessoas prevenidas do que um colega ser o próximo óbito registrado, não é mesmo?
Vejamos algumas possibilidades para acionar o gatilho do medo da forma mais leve possível:
1 – Histórias de Casos Reais
Compartilhe relatos de acidentes graves e fatais que ocorreram devido à negligência com as normas de segurança.
Use vídeos, áudios, depoimentos e notícias para impactar emocionalmente.
2 – Simulações de Acidentes
Realize treinamentos com simulações realistas de acidentes.
Sentir o perigo na prática pode ser mais eficaz do que apenas ouvir sobre ele.
3 – Placas e Sinais de Impacto
Ao invés de placas genéricas, utilize mensagens diretas como:
- “Este EPI pode salvar sua vida – escolha usá-lo ou arrisque nunca mais voltar para casa.”
- “Neste local, um trabalhador morreu porque ignorou esta norma.”
4 – Depoimentos de Familiares
Convide parentes de vítimas de acidentes de trabalho para compartilhar como a perda impactou suas vidas.
O vínculo emocional pode mudar atitudes.
5 – Desafio: Trabalhar um Dia Sem Segurança
Proponha um experimento mental: “E se hoje ninguém seguisse as normas de segurança?”
Discuta os possíveis cenários e consequências, gerando reflexão e adesão às regras.
Essas ações criam um impacto emocional forte e fazem os trabalhadores entenderem que as normas de segurança não são burocracia, mas sim a linha entre a vida e a morte.
Gatilho 2 – A Vontade de Viver
Por outro lado, a vontade de viver está ligada ao desejo de auto realização, expectativas e sonhos.
Por isso também possui uma carga motivacional poderosa, que deve ser incentivada no contexto da saúde e segurança ocupacional.
Impulsionar as pessoas para crescer e alcançar seus objetivos é sempre ótimo.
Na prática, o gestor de segurança e sua equipe terão sucesso nessa iniciativa adotando as seguintes ações:
1 – Histórias Reais de Superação
Compartilhe relatos de trabalhadores que sobreviveram a acidentes graças ao uso correto dos EPIs ou boas práticas de segurança.
Isso cria conexão emocional e reforça a importância de cuidar da própria vida.
2 – “E se fosse com você?” – Reflexão guiada
Faça perguntas diretas como:
“Se você não se cuidar hoje, quem mais sofrerá as consequências?” ou “O que você diria para um amigo que se arrisca no trabalho?”.
Isso ativa a empatia e a autoconsciência.
3 – Conectar Segurança com Sonhos Pessoais
Peça aos trabalhadores que escrevam seus maiores sonhos e depois pergunte:
“O que aconteceria com esses sonhos se um acidente grave ocorresse?”.
Essa reflexão associa segurança com realização pessoal.
4 – Família em Primeiro Lugar – Mensagens dos Entes Queridos
Vídeos ou cartas de filhos, parceiros ou pais reforçando o quanto querem a pessoa viva e saudável criam um laço emocional forte com a necessidade de seguir as regras de segurança.
5 – Rituais de Segurança com Significado Pessoal
Incentive que cada trabalhador crie um pequeno ritual antes de começar a jornada, como tocar a foto da família no crachá ou mentalizar um objetivo de vida.
Isso reforça o compromisso com a própria segurança.
Cada uma dessas ações ativa um gatilho emocional diferente, fortalecendo o instinto de preservação e a vontade de viver.
Qual delas você acha que pode ter mais impacto no seu ambiente de trabalho?
Gatilho 3 – O Senso de Importância
Em seu livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” , Dale Carnegie foi claro e direto ao dizer que o desejo de sentir-se importante é o maior dos anseios de qualquer ser humano.
Não importa qual seja a época ou lugar está no coração de todo humano o senso de reconhecimento por sua relevância.
Por isso, este é um gatilho sorrateiro, que precisa ser trabalhado em harmonia com os demais.
Os efeitos são surpreendentes em todos os clientes que levaram minhas palestras motivacionais de segurança do trabalho.
Vamos observar cada uma das ações propostas para disparar esse gatilho com maestria e elevar o engajamento do seu time nos procedimentos de saúde e segurança:
1 – Reconhecimento Público e Personalizado
Destaque trabalhadores que seguem as normas de segurança com murais de “Heróis da Segurança” ou premiações simbólicas, como um crachá dourado ou um certificado de “Guardião da Vida”.
2 – Pedir Opinião e Envolver na Tomada de Decisão
Convide os funcionários para sugerirem melhorias na segurança e implemente as melhores ideias.
Isso os faz sentir que suas ações têm impacto real no ambiente de trabalho.
3 – Mostrar o Impacto de Suas Ações
Apresente histórias onde pequenas atitudes de segurança evitaram tragédias.
Frases como “Graças a você, ninguém se machucou hoje!” reforçam a percepção de valor.
4 – Personalizar EPI e Ferramentas
Permita que cada funcionário tenha algo único em seus equipamentos de proteção (ex: nome no capacete, cor especial, adesivos motivacionais).
Isso cria um senso de identidade e pertencimento.
5 – Criar um Símbolo de Time
Desenvolva um lema ou slogan sobre segurança escolhido pelo grupo.
Isso gera um sentimento de unidade e pertencimento, reforçando que cada um é essencial para o sucesso coletivo.
Essas ações ativam o sentimento de importância.
Cada trabalhador tem um papel fundamental na segurança da equipe e no próprio bem-estar.
Você acha que alguma delas se encaixaria bem no seu ambiente de trabalho?
Harmonia e sabedoria na segurança
A combinação dos três gatilhos é o segredo do sucesso no engajamento dos trabalhadores, dentro e fora da empresa.
Pensar a partir das emoções mudará a forma como você vê e pratica a gestão da segurança.
Se você é líder de segurança verá seus indicadores brilhando.
Tenha paciência para fazer uma mudança de cada vez e criar uma nova cultura de segurança.
A persuasão estratégica é a melhor amiga da CIPA e também a melhor amiga do trabalhador.